O TANGO NA TERRA DE BORGES

Para os bonarenses, - argentinos nascidos em Buenos Aires – alguns temas que invariavelmente provocam acalorados debates são, não necessariamente nessa ordem, tango, Gardel, Perón, Evita e Maradona. Tomás Eloy Martínez, consagrado jornalista, escritor, professor, roteirista, crítico de cinema e literatura, em seu livro “O Cantor de Tango”, aborda dois deles: o tango e Gardel. De lambuja, o romancista conduz o leitor a um passeio pelas avenidas e cafés; pelas livrarias; um mergulho na literatura, na história; enfim, um tour pelas entranhas de uma cidade em ebulição a partir do início do século passado até o reveillon de 2002. O cenário tem como ponto de partida a Argentina de 2001, “à beira do abismo”, quando Bruno Cadogan, um doutorando em letras pela Universidade de Nova York que pesquisa como tese de conclusão a obra de outro gênio, o escritor e poeta Jorge Luiz Borges, resolve visitar Buenos Aires. Sua missão na Capital Federal é procurar Júlio Martel, o misterioso cantor de tango que nunca gravou um disco mas reproduz “o milagre de devolver ao gênero seu espírito primordial ”. A voz, dizem os que o conhecem, é uma

cópia fiel e perfeita do imortal Carlos Gardel. “Se estivesse acompanhado pelo violão de José Ricardo, a gente juraria que é Gardel”. “É melhor que Gardel”, afirma Jean Franco, um estudioso da obra de Borges nos Estados Unidos. Mas afinal, o que existe em comum entre Gardel e Borges? Há quem afirme que nem sequer a nacionalidade, pois para alguns o cantor nasceu no Uruguai. Em comum, pode ser que não haja absolutamente nada. Não fosse a trapalhada do personagem ao discorrer o tema de sua tese, quando passou alguns minutos tentando explicar a Franco o que Borges pensava sobre o tango, “os verdadeiros tangos eram aqueles compostos antes de 1910”, Badogan sequer teria conhecido a Argentina. Na América, não era mais do que um país longínquo, do outra lado do hemisfério. Após ouvir a confusa exposição, Franco falou da existência de Martel e sugeriu que ele fosse até Buenos Aires para ouvi-lo cantar. Passados alguns meses - na verdade, sabe-se lá por que... - Cadogan viu-se no aeroporto de Ezeiza disposto mergulhar no passado para refazer os caminhos do incógnito cantor. O seu maior dilema é que Martel nunca teve qualquer lógica para escolha de seus palcos de apresentação. Podia ser locais públicos e insólitos, como passagens subterrâneas, estações de trens, prédios públicos, casas abandonas ou qualquer reduto de mendicância; cafés em decadência; na calle Florida ou numa esquina de qualquer bairro operário, da Recoleta ou mesmo do “Fuerte Apache” – a maior; mais miserável e violenta favela de Buenos Aires. Pior: Martel não deixou marcas, nem resquícios. Movido pela ânsia de encontrar o misterioso artista, Cadogan tornou-se uma espécie de detetive a perseguir seu alvo por labirintos da vida, da história e do tempo. Aí se resume o foco desse brilhante enredo.
Martínez conduz seu personagem pelo mais diversos contornos, passando pelo massacre dos anarquistas na chamada Semana Trágica, de 1919; pelos horrores da ditadura militar; pelo submundo da prostituição, por tragédias como o atentado contra a Asociación Mutual Israelíta Argentina – AMIA, em 1994, além de traspassar pelos anos dourados vividos entre as décadas de 50 e 60 nos cabarés, cafés e teatros da avenida Corrientes. O romance é um corolário de revelações, uma sucessão de fatos que molda a face de uma Buenos Aires em convulsa transformação, por vezes triste, lacônica, porém sempre bela e sombria. Um misto de dor, de desejo; de prazeres e angústias, enfim, o retrato da noite e seus mistérios. Aliás, como o próprio tango. (RR)