O CENTENÁRIO DA MORTE DE EUCLIDES DA CUNHA

Considerado como um dos mais importantes escritores da literatura brasileira, Euclides da Cunha morreu em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade, assassinado pelo militar Dilermando de Assis.  Oito anos após matar Euclides, Dilermando de Assis também assassinou o jovem Quidinho – Euclides da Cunha Filho – que tentava vingar a morte do pai.  Esta trágica história foi contada pela Rede Globo na minisérie Desejo, exibida entre maio e junho de 1999.
Nascido em 20 de janeiro de 1866, na então província do Rio de Janeiro, Euclides da Cunha cursou a Escola Politécnica e tornou-se engenheiro militar. Mas sua vocação sempre foi a escrita. Em 1897, viajou para Canudos, no sertão da Bahia, como correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo”. Foi designado para cobrir a Guerra de Canudos, quando o Exército Brasileiro enfrentou e derrotou a resistência popular liderada por Antônio Conselheiro. As reportagens que escreveu  transformaram-se no livro “Os Sertões”, ícone da literatura brasileira, e que foi quase que totalmente escrito em  São José do Rio Pardo, interior de São Paulo. O escritor engenheiro morou na cidade entre 1898 e 1900, incumbido da reconstrução da ponte sobre o rio Pardo, que desabara. Residiu com a família no sobrado da rua 13 de Maio, esquina com Marechal Floriano, local onde hoje se situa a Casa de Cultura Euclides da Cunha, a Casa Euclidiana.

No barraco de zinco próximo à ponte, enquanto supervisionava a obra, ele começou a redigir sua obra prima “Os Sertões”. Francisco Escobar, intendente municipal e homem de grande cultura, estimulava o escritor fornecendo livros e reunindo um grupo de intelectuais para a leitura dos primeiros capítulos. Em 1900, escreve para o jornal “O Rio Pardo” um artigo intitulado “O 4º Centenário do Brasil”. Em maio do mesmo ano termina a redação do livro. O intendente da cidade contrata o sargento de polícia José Augusto Pereira Pimenta para “transcrever em boa caligrafia os originais” que viria a ser publicado em 1902.
No livro -  dividido em três partes, a terra, o homem e a luta - ele narra a batalha travada contra o movimento messiânico de Antonio Conselheiro, no sertão da Bahia. No entanto, ao analisar os fatos ocorridos em Canudos, o autor refuta a noção que prevalecia à época de que no litoral se encontrariam condições de avanço civilizatório em oposição ao interior. Pelo contrário. O engenheiro e dublê de escritor aponta que tanto os litorâneos quanto os interioranos, cada qual em suas especificidades, se encontrariam em um estádio bárbaro de sociedade, bastava atentar para a crueldade com que se reprimiu o movimento de Conselheiro. Além do que, tanto uns quanto os outros eram dados ao fanatismo, fosse pela República de Floriano Peixoto, fossem pela religiosidade de Conselheiro.  Mas ainda há muito mais a ser conhecido. Traumatizado pela experiência de Canudos, Euclides combateu a idéia de o Brasil entrar em guerra com o Peru pela posse do que seria hoje uma parte do Estado do Acre. Condenou o envio de tropas à região, defendeu um acordo por via diplomática e acabou sendo incumbido pelo Barão do Rio Branco para chefiar a Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Sua missão: fazer o levantamento cartográfico da região e determinar a nascente do rio que separa os dois países.
Engenheiro, jornalista, escritor e professor, Euclides da Cunha pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico e à Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 1903. Seus restos mortais, assim como de seu filho, repousam na cidade de São José do Rio Pardo, no mausoléu construído em sua homenegem próximo da cabana de zinco e da ponte por ele projetada, às margens do rio Pardo. (RR)