A Menina que Roubava Livros (The Book Thief, no original) é um romance do escritor australiano, Markus Zusak, publicado em 2006 e lançado no Brasil pela editora Intrínseca em março de 2007. Desde então, permaneceu por longos meses na lista dos mais vendidos. Vale minha penitência: raramente me interesso por livros que fazem parte do rol “os mais vendidos”, os chamados best-sellers, salvo aqueles recomendados por amigos ou quando leio insistentes comentários favoráveis. Agora, o livrou caiu em minhas mãos na forma de presente. Só então descobri que trata-se de uma grande obra.
Narrada pela morte – sim a morte, essa enigmática e desconhecida que ronda, amedronta e ameaça nossas vidas sem que nós nada dela saibamos - o livro conta um trecho da vida de Liesel Meminger, uma garota que se encontrou com a narradora [a morte] diversas vezes ao longo de sua existência e foi por ela observada. Pois é justamente neste mix de ficção e realidade que acontece a primeira grande surpresa: o texto seduz não só pela forma, pelo estilo, pelo gênero, mas também
|
pela simplicidade das palavras empregadas pelo autor. Num vai e vem de fatos e registros, Zusak consegue manter o leitor atento e envolvido por inteiro no enredo de uma história que tem como palco a Alemanha nazista em plena Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1943. A vida se resume a rua Himmel,na cidade de Molching, arredores de Munique, e serve como pano de fundo para descrever um verdadeiro inferno dantesco onde se sucedem todos os dilemas e desgraças vividos por aquela gente. Mas Zusak não faz disso um calvário; ao contrário, com naturalidade, sem pieguismo ou dor, sem culpa e, principalmente, sem apontar o dedo acusativo à ninguém, simplesmente descreve os fatos. Trata-se de uma narrativa inusitada, diferenciada, onde além da história sintetizada em arte sobra espaços para comentários sarcásticos, irônicos ou mesmo cômicos.
Liesel, a personagem principal do livro, acompanhou a ascensão e decadência do III Reich e assistiu a rotina dos alemães seguir os mesmos passos. A guerra, os ataques, o medo, o terror, a destruição, a SS incrustada em cada esquina, em cada olhar, gerou apreensão e retirou daquelas almas a pouca alegria que restava. Só um surrado acordeão nas mãos de Hans Hubermann, além da leitura de livros roubados, era capaz de amenizar o sofrimento de Liesel e dos frequentadores do bar Knoller, onde Hans costumava tocar seu instrumento por uns míseros trocados. Rosa, a esposa, que além de cuidar dos afazeres domésticos lavava e passava roupa para cinco famílias ricas, “tinha a face decorada por uma fúria constante” a ponto de “os vincos se transformaram na textura de papelão do seu rosto”. Eram as marcas do tempo, as rugas, provocadas por tantas rusgas. Max Vanderburg, o jovem judeu que habitou no porão dos Hubermann, é a síntese de um dilema que açoitou mais de seis milhões de vidas miseráveis, homens, mulheres e crianças que serviram de cobaias para a mais cruel e desumana aventura que se tem noticia em toda história. Rudy Steiner, seu melhor amigo, namorado platônico e companheiro de aventuras. Enfim, uma ficção da vida real.
A Menina que Roubava Livros faz rir e emociona, vai de um extremo a outro com muita facilidade, e, tal qual uma montanha russa, joga o leitor numa ladeira íngreme nos últimos capítulos. Grande estréia de Zusak, com personagens marcantes, enredo bem amarrado e narrativa diferenciada. Um discípulo leal e aplicado do gênio colombiano Gabriel Garcia Márquez. (RR)
|