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Olivro do jornalista Caco Barcellos, Rota 66 – A História da Polícia que Mata, publicado pela Editora Record, é muito mais que a síntese da violência nas periferias da cidade de São Paulo. Trata-se de um retrato 3x4 do cotidiano de qualquer grande cidade brasileira. Aliás, uma correção: inclusive as médias. A imprensa alardeou recentemente que Foz do Iguaçu, com cerca de 300 mil habitantes, localizada na tríplice fronteira - divisa do Brasil com o Paraguai e Argentina - é considerada pelos estudos do “Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros” a recordista por mortes violentas na população entre 15 e 24 anos. As 350 páginas formam um compêndio pródigo em dados e informações não só sobre a violência, mas que serve como subsídio para entender a ação da polícia militar de São Paulo no desempenho de suas funções. Segundo o autor, o balanço final do trabalho foi uma surpresa até mesmo para ele, uma vez que o projeto inicial era mostrar “a ação de matadores oficiais contra civis envolvidos em crimes na cidade” de São Paulo.
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Tudo começou com uma intensa busca nos arquivos de jornais e da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, quando foram analisadas e cruzadas informações contidas em 3.546 processos de pessoas mortas em tiroteios com a polícia paulistana. Após sete anos de investigações, Barcellos deu o tom de sua narrativa a partir de um fato acontecido na capital paulista: cinco policiais em uma viatura, número 66, da Rota - Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar perseguem e matam três jovens desarmados sem nenhum antecedente criminal. Uma série de outras histórias ajudam a descrever a arbitrariedade da Policia Militar entre os anos de 1970 e 1992. O confronto de informações “do nosso banco de dados com o da Justiça Civil” revelou que cerca de 65% das vítimas assassinadas pela PM eram inocentes. “Entre as pessoas mortas que conseguimos identificar, apenas 34,6% estiveram envolvidas em crimes ou em qualquer outro processo” revela Caco. “Para minha surpresa, ou melhor, para o meu espanto, encontrei nos autos provas de que os policiais são incentivados a matar criminosos durante o patrulhamento da cidade”. A estimativa é que a policia militar tenha exterminado nestes vinte e dois anos, só na região da grande São Paulo, entre 7.500 e 8.000 vidas.
Um detalhe no mínimo “curioso” que o livro aponta é que a quase totalidade dos registros em Boletins de Ocorrências provenientes de operações que resultaram em mortes, consta que “os suspeitos estavam armados, reagiram e após serem feridos foram levados com vida ao hospital”. Este quesito [retirada dos corpos], segundo o autor, nada mais é que uma simulação para criar dificuldades às investigações e posteriormente se transformar em álibi aos policiais envolvidos, afinal qualquer mudança no cenário do crime compromete todo o trabalho dos peritos. Para ele, um gesto aparentemente humanitário é capaz de transformar os hospitais em verdadeiros esconderijos de cadáveres. “Se os PMs falam a verdade”, afirma o jornalista, “estamos diante de um caso de incompetência médica e hospitalar. Dos 3.546 casos de pessoas feridas em tiroteio com a polícia que analisamos e deram entrada nos pronto socorro, nenhuma foi salva pelos médicos de plantão”.
O livro também pode servir como parâmetro de referencia aos adeptos da teoria que “bandido bom é bandido morto”. Nele, em nenhum momento o autor faz qualquer apologia ao crime ou algum clamor pela impunidade dos marginais. Ao contrário do que os menos avisados possam imaginar, Barcellos não julga e muito menos omite as ações criminosas cometidas pelos personagens ali descritos. Simplesmente expõe o quanto esta realidade é distorcida para servir aos interesses de policiais, jornalistas, advogados, radialistas, políticos e até integrantes do Poder Judiciário. Sob o manto da doutrina pela não violência, milhares de pessoas comuns, inocentes, que neste instante trafegam por qualquer canto deste País estão sujeitas a se transformarem em vítimas desarmadas, indefesas e apavoradas pela perseguição de uma corporação despreparada – exceto pela aplicação da
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força bruta. A preocupação do jornalista é mostrar como a polícia age na repreensão e no combate ao crime, além de, como todos nós, tentar entender por quê a policia tortura e mata milhares de cidadãos inocentes. Fazer cumprir a lei, prender bandidos ou dar tranquilidade à população são ações que deveriam ser parte da rotina dos policiais. O inconcebível é que o combate à violência se dê por atos e meios ainda mais violentos e contra pessoas inocentes.
Em Rota 66 – A História da Polícia que Mata, Caco Barcellos escancara as vísceras de um sistema em estado de putrefação latente, fomentado pela corrupção, pela extorsão e gerido por métodos que incentivam a pratica da tortura, da violência e da morte. Toda esta mixórdia resulta numa sociedade cada vez mais insegura, amedrontada, acuada, com temor não só pelos bandidos, mas inclusive àqueles que são pagos para protegê-la. A regra que prevalece por estas terras de Pindorama pode ser resumida pelo desabafo de uma mãe diante do Conselho de Justiça Militar do Estado de São Paulo formado por um juiz civil, dois majores e dois tenentes da PM que, em junho de 1981, absolveu os policiais da Rota 66 que mataram seu filho: “venceu a brutalidade dos covardes”. Até quando? (RR) |
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