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NELSON MANDELA. UM HOMEM PREDESTINADO
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O livro “Conquistando o Inimigo”, do jornalista britânico John Carlin, que serviu de inspiração ao roteiro do filme “Invictus”, do diretor Clint Eastwood e estrelado pelo ator Morgan Freeman, narra a trajetória de Nelson Mandela desde o período em que sai da prisão, em 1990, após 27 anos de reclusão, até 1995, quando já eleito presidente da república, realiza na África do Sul a Copa do Mundo de Rúgbi. O livro, assim como o filme, não teria o menor sentido se o personagem central e os fatos não tivessem acontecido exatamente da forma como se deu. Antes, vale a pena relembrar um pouco da história desta nação que durante séculos foi vítima de políticas racista, desumana, que o próprio Mandela descreveu como um “genocídio moral” – não com campos de concentração, mas com o extermínio insidioso da autoestima das pessoas. Um país onde a maioria negra poderia encontrar justificativas para ter sede de vingança, mas em vez disso o que se viu foi um líder dando lição de perdão. “Quando houver no coração ira, ódio e ressentimento, busquem encontrar o que ainda resta de generosidade para agir” ensinava o velho líder. |
O inusitado na história é que Mandela busca a paz por meio do esporte. Não o futebol, considerado o mais popular, mas justamente o rúgbi praticado pela elite branca que durante séculos dominou e subjugou os negros. Aliás, todo o sistema político sul-africano estava baseado e definido por três das mais perversas e ignóbeis leis já criadas. A primeira, a Lei de Reserva de Benefícios Separados, impedia o acesso dos negros aos parques, praias ou locais definidos como exclusivos aos brancos. Até as babás negras, se por acaso viajassem com as patroas em trens, eram obrigadas a ficar em espaços exclusivos. A segunda, Lei de Registro da População, compartimentava as pessoas por grupo racial: brancos, mestiços, indianos e negros. Além disso, impedia o casamento inter-racial, apesar de tolerar conquanto não fosse com brancos. Finalmente, a Lei das Zonas de Grupos, que determinava em quais partes da cidade os negros podiam viver. A estes, era reservado as partes pobres, sem qualquer infra-estrutura e desprovida de políticas públicas. Havia ainda a “caderneta do passe”, usada pelos negros que trabalhavam em locais ou ambientes para brancos. Era a garantia que eles, os negros, só ficariam ali o tempo necessário para servi-los. O cúmulo era a justificativa para tais políticas. De acordo com os fundamentalistas, era uma ordem divina. Apoiavam-se no livro “Aspectos Bíblicos do Apartheid”, publicado em 1958 por um teólogo da Igreja Reformada Holandesa. Segundo o livro, até no céu haveria a separação entre brancos e negros, afinal, estava escrito na Bíblia que “na casa de meu Pai há muitas moradas”.
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Sob o argumento de que “se entrarmos em guerra, não haverá vencedores”, Mandela foi capaz de convencer seus compatriotas a apoiar a seleção de rúgbi que durante décadas era considerada, pelos negros, adversária dentro do próprio país. Para eles, o esporte era o símbolo da dominação. Utilizou o fanatismo dos africâneres, como se intitulavam os brancos, para mostrar que era possível fazer uma Nação unida e sem ressentimentos.
A história é uma lição de sabedoria, paciência e perdão. Mandela, aos 92 anos, dá mostras de que sem ódio ou rancor é possível superar diferenças e estabelecer parâmetros de convivência numa sociedade cada mais individualista e injusta. Para um mundo cético, “Conquistando o Inimigo” é a prova de que a fraternidade ainda é possível. (RR) |
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