UM RETRATO DO MUNDO CORPORATIVO

“O  Livro dos Mandarins”, lançado pela editora Alfaguara, é uma espécie de romance ímpar na literatura brasileira. Nele, o escritor Ricardo Lísias alia as reviravoltas e o suspense de um thriller a um estilo literário vibrante, original, para narrar a trajetória de Paulo, um executivo bem sucedido , competitivo e com uma única obsessão: ser o escolhido, entre os candidatos do banco em que trabalha, para a vaga de diretor executivo na China e depois ser transferido para a matriz, em Londres. Daí, além do poder e dinheiro, quem sabe escreva um livro de auto ajuda para jovens executivos ou até mesmo abrir sua própria empresa de consultoria.  Para montar este detalhado quebra cabeças ele vai além dos concorrentes. Estuda mandarim, pesquisa dados históricos e culturais sobre o país, lê a biografia de Mao Tse-Tung, o Grande Timoneiro, enfim, torna-se um especialista no tema. Não poderia ser de outra forma. Trata-se de um profissional completo cujos lemas são perseverança, organização e liderança. Paulo só não conta com um pequeno detalhe: os planos reservados pela vida são muito diferentes do que poderia imaginar.

O livro é um romance surpreendente, permeado pelo bom humor e por momentos desconcertantes. "O personagem é parecido com outros executivos, que têm um rígido código de comportamento, da roupa à linguagem", diz Lísias. "Eles não leem livros que não sejam técnicos ou de autoajuda corporativa, têm celulares, laptops e relógios incríveis, além do que costumam tratar com grosseria os funcionários inferiores." A marca principal desses indivíduos, segundo o escritor paulistano de 34 anos, é a espinha flexível que se verga ao mandachuva de plantão. "Eles são práticos, aprendem a engolir sapos tirando lucro de tudo." São praticantes de uma ideologia, a do dinheiro obtido a qualquer custo, mesmo o humano. "Todos têm um ideário com discursos prontos para escamotear suas reais intenções”.

Para escrever o romance, Ricardo Lísias estudou mandarim, assinou um jornal de economia e frequentou os mesmos lugares dos executivos que se metamorfoseiam em personagens. A China é o outro protagonista da obra. O país asiático ascendeu como o novo exemplo de economia pujante. "Os executivos achavam que a China era a solução para tudo." Quando lia o noticiário econômico, Lísias notava que se repetia apenas um ponto de vista. "Só falavam que a economia chinesa tinha saído ilesa da crise financeira mundial " Causou-lhe perplexidade nunca terem mencionado a existência de um Estado autoritário governando os chineses – “na verdade, uma ditadura comunista de direita”.

"O Livro dos Mandarins" apoia-se em fatos históricos e cita personalidades políticas, como o presidente Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, visto por Paulo como "um grande mentor. O protagonista tem saudade do governo FHC”. À medida que caminha para o final, a história toma novos contornos que vão do cínico, doentio ao cômico. Com o tempo, aquele mundo enquadrado e planejado vai se revelando um monte de ruínas. Um dos recados do autor é que estas pessoas, em virtude de seus títulos, diplomas, funções, se mostram cheias de importância e presunção. É possível que alguma coisa Paulo tenha aprendido com a experiência chinesa. Principalmente que a arrogância, a prepotência e o marketing pessoal não são os atributos ideais para torná-lo alguém melhor no mundo real. (RR)