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Paulo Leminski foi a antítese do óbvio, do lugar comum. Nada, absolutamente nada na vida deste neto de polonês e mãe negra teve regras, referências ou limites. O jornalista Toninho Vaz, autor do livro “Paulo Leminski - O bandido que sabia latim”, define-o como uma “tempestade na cena cultural brasileira”. Na verdade, Leminski foi muito mais que uma tempestade. Uma espécie de tsunami, de um tornado arrasa terra que passou e deixou marcas indeléveis na então pacata e provinciana Curitiba dos anos de 1970 e 80. Nascido em 24 de agosto de 1944, em Curitiba, muito cedo mostrou a que veio. Irrequieto e cheio de dúvidas desde garoto jamais gostou de frequentar as salas de aula. Anos mais tarde escreveria uma despojada estrofe sem título para justificar quem era. |
Nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé certezas o vento leva
só dúvidas continuam de pé |
Aliás, “não conseguia sequer assistir as aulas. Isso era um aborrecimento para ele”. Na faculdade, não foi sequer um aluno “regular”. No entanto, nada foi capaz de impedi-lo de ser aprovado em segundo lugar no vestibular para o curso de Direito, na Universidade Federal do Paraná, e em primeiro lugar para o curso de Filosofia, na Universidade Católica. Desistiu de Direito e concluiu Filosofia em 1965. Autodidata, falava e escrevia em oito idiomas: francês, inglês, italiano, polonês (este veio do berço), japonês, latim, grego e hebraico. Com orgulho, dizia ser “professor brasileiro, poeta, escritor, tradutor e faixa preta em judô” – outra de suas grandes paixões. Trabalhou também como jornalista e publicitário. Deixou inúmeras letras de músicas escritas em parceria com Caetano Veloso, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes, gravadas pelo próprio Caetano e a banda curitibana Blindagem. Leminski era, em tudo, intenso. Respirava poesia e talvez não tenha sabido viver de outra maneira. Suas entregas eram definitivas, sem voltas. Num dos seus primeiros livros escreveu “vai vir o dia/quando tudo que eu diga/seja poesia”. Para o jornalista Ademir Assunção, quem o conheceu de perto sabe que ele ”transformou esse verso numa espécie de lema para sua própria vida”. Nestes caminhos trilhou por descaminhos que foram sem volta. O alcoolismo foi o mais grave deles. Boêmio, afundou-se na bebida após a morte prematura do filho primogênito, Miguel Ângelo Leminski, aos dez anos de idade. |
Acometido por um câncer, o garoto foi submetido a um intenso tratamento durante anos, mas a medida que as forças do filho iam sendo minadas Leminski mergulhava cada vez mais no alcoolismo. Após 8 meses internado no hospital das Clínicas, em Curitiba, Miguelzinho faleceu em 30 de julho de 1979. O que já era muito, tornou-se ainda maior. O álcool, pouco a pouco, corroeu-o completamente. Os amigos tentaram de todas as formas demovê-lo para longe das garrafas de vodka consumidas diariamente, mas ele resistia. Parecia ter plena consciência que aquela era sua derradeira aventura. Com uma calma aterradora justificava que “preferia se manter nesse rumo com a dignidade de um navio perdendo a rota”. Numa noite fria do inverno de 1989, às 21h20 do dia 7 de junho, Paulo Leminski morreu vítima de cirrose hepática. O livro de Toninho Vaz, “O bandido que sabia latim”, resgata parte da memória de um personagem genuinamente paranaense que, infelizmente é conhecido apenas por emprestar o nome ao maior palco de shows a céu aberto do Paraná – a pedreira Paulo Leminksi. (RR) |
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