DA TIJUCA À NOVA YORK, VIA IPANEMA

A história de Antonio Carlos Jobim, ou simplesmente Tom Jobim, se confunde com a história da música popular brasileira. Ou melhor, é um capítulo da história da cidade do Rio de Janeiro. Sérgio Cabral, jornalista, escritor e compositor, especialista em MPB, é o autor do livro “Antonio Carlos Jobim – Uma Biografia”, editado pela Companhia Editorial Nacional. Nele, Cabral narra a trajetória do menino que sonhava ser arquiteto e acabou se transformando num dos mais importantes - para alguns, não só o mais importante como o mais brilhante - nomes da musicografia brasileira.

Nascido na Tijuca, bairro da zona norte carioca, em 25 de janeiro de 1927, filho do diplomata e escritor Jorge de Oliveira Jobim e Antônia Cândida da Trindade Jobim, Tom não recebeu qualquer influência do pai na sua formação cultural. Aliás, ele muito pouco conheceu e praticamente não conviveu com o pai. Logo após seu nascimento, o casal se separou. Quatro anos mais tarde houve uma

tentativa de reconciliação que acabou resultando no nascimento da irmã, Helena Isaura Jobim. Mas o casamento não resistiu. “Meu pai não conseguiu suportar a beleza da minha mãe. Seu ciúme era incontrolável” diagnosticou o autor de “Garota de Ipanema” anos mais tarde. Em 1935, vítima de uma parada cardíaca, Jorge Jobim faleceu no Rio de Janeiro. Sua mãe, em 1937, casa-se com Celso Frota Pessoa, por quem Tom tinha o maior carinho e respeito. Na verdade, era seu pai de fato.

A infância e a adolescência foi toda vivida no bairro que ele imortalizou em suas canções: Ipanema. A influência da música veio de família. Sua avô materna, Maria Emília, além de cantar tocava piano, mas faleceu quando o neto tinha quatro anos. Aliás, o apelido Tom veio pela música. Uma canção francesa que repetia diversas vezes a frase “ma vie s’em va ton guerre, ton, ton, ton “, - em tradução livre algo como “minha vida é uma guerra, tom, tom, tom” - era uma das preferidas do menino Antonio Carlos. Pela insistência com que repetia a frase a irmã passou a chamá-la de “Ton, Ton”, nascendo aí o apelido que o identificaria pelo resto da vida. Mas o gosto pela boêmia, além da música, ele dizia ter herdado do tio e padrinho, Marcelo. Aos 13 anos, começou a estudar piano e nos primórdios dos ano 50, como pianista da noite carioca, dava inicio a consagrada carreira de compositor, cantor, maestro, pianista, arranjador e violonista. 

Autor de centenas de composições, Tom ficou imortalizado, principalmente no exterior, pela música “Garota de Ipanema”, escrita em parceria com Vinicius de Moraes. Até hoje é a canção brasileira mais executada no exterior. De acordo com a Broadcast Music Incorporated – BMI, dos Estados Unidos,até 2004 apenas seiscentas musicas haviam sido tocadas mais de um milhão de vezes no país. Destas, seis eram de autoria de Tom Jobim. Para se ter uma noção da grandeza destes números, Michael Jackson, à época,  não tinha atingido mais de um milhão de execuções em qualquer uma de suas músicas. Os dirigentes da BMI calcularam que se a gravação de “Garota de Ipanema” fosse repetida, ininterruptamente, tantas vezes quantas já fora executada só pararia de ser tocada após 150 mil horas, o equivalente há mais de 17 anos. Até a década de 80, depois dos Beatles Tom era o compositor estrangeiro mais executado nos EUA, e nos meios artísticos era uma das celebridades mais reverenciadas.

Em 8 de dezembro de 1994, às 8 horas da manhã, sob uma temperatura de zero grau, Tom Jobim sofreu uma parada cardíaca e faleceu em Nova York, onde vivia com a família.

Foi enterrado no Rio de Janeiro, essa sim, a cidade que tanto amou, na tarde dia seguinte, 9 de dezembro, com a temperatura beirando os 40º. “Quando morreu Rui Barbosa”, assinala Sérgio Cabral no livro, “o jornal Correio da Manhã  em manchete assim definiu a perda: “Apagou-se o Sol”. Algo semelhante aconteceu na música brasileira e nas mesas dos bares cariocas naquela manhã de 8 de dezembro de 1994”. (RR)