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O jornalista Geneton Moraes Neto está de volta à literatura fazendo justamente aquilo que melhor sabe fazer: escrever, narrar, esmiuçar e contar fatos que fazem a história. Desta vez é o livro “Dossiê Gabeira – O filme que nunca foi feito” que acaba de ser lançado pela Editora Globo. No prefácio, o escritor Ignácio de Loyola Brandão avisa que trata-se de um “livro-entrevista que se lê como um romance”. Depois, acrescenta a importância da obra como sendo ”um documentário que precisa ser resgatado para as gerações que não souberam o que foram os bastidores da ditadura militar”. Após decifrar as 250 páginas que servem como um desabafo desprovido de qualquer paixão juvenil do jornalista e dublê de deputado, Fernando Gabeira, o leitor irá compreender melhor ou quem sabe até mesmo rever alguns conceitos sobre os anos de chumbo da ditadura militar. Gabeira expõe todos os seus temores, dúvidas e fraquezas, inclusive as divergências conceituais que tinha à época com setores da esquerda; faz uma autocrítica pessoal e de toda sua geração. Questiona inclusive aquilo que poderia ser a |
maior glória para qualquer militante dos movimentos de esquerda que foi a participação no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, “às 14h30 do dia 4 de setembro de 1969” – há exatos 40 anos e que serviu como moeda troca para a libertação de 15 presos políticos. “Sempre tive dúvidas sobre a eficácia do processo. Mas as dúvidas eram malvistas” afirma Gabeira.
A primeira questão formulada por Geneton é cáustica, objetiva e direta. “Você – que chegou a apontar um revólver para o embaixador no cativeiro – teria coragem de executá-lo se as exigências não tivessem sido cumpridas pelo regime militar?” Antes de responder, o deputado-jornalista confessa que “a pergunta talvez seja a mais difícil da minha vida”. A partir daí o livro narra uma sessão de perguntas e respostas que durou seis horas, realizada na suite de um hotel em Ipanema e agora publicadas “ipsis literis”. A importância não está no pensamento político ou social de Gabeira, mas no contexto das reminiscências de um jovem que ousou mergulhar “como poucos, tão fundo em tantos mares tão diferentes”. Trata-se de um retrato sem retoques – ou sem photoshop, diriam os mais jovens - a partir de uma ótica estritamente pessoal. A construção do personagem se dá passo a passo começando pelo “Gabeira jornalista; depois, o Gabeira guerrilheiro; o Gabeira preso político; o Gabeira exilado; o Gabeira anistiado; o Gabeira militante político e por fim, o Gabeira parlamentar”.
O livro, no entanto, ficou devendo um detalhe que pelo cenário político atual seria interessante que viesse à tona. O fato está relacionado diretamente ao sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. Além de Gabeira, participaram da operação onze militantes de organizações clandestinas, inclusive o jornalista Franklin Martins, atual ministro chefe da Secretaria de Comunicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre eles, há um enorme ressentimento pessoal não justificado. “Franklin ficou meu inimigo. Nunca falou comigo. Nunca tivemos nenhum contato. Deixou de falar comigo porque acha que, em meus relatos, fui desonesto por ter subestimado a inteligência e a seriedade dos participantes” comenta o deputado. |
O autor do livro esteve em Brasília para conversar com o ministro mas não fez, ou não publicou, nenhum questionamento sobre o assunto. Nas oito páginas de seu relato, Martins aborda os fatos de forma superficial e sem maiores explicações. O nome de Gabeira é citado uma única vez. No mínimo, estranho. Mas nada invalida o trabalho de Moraes Neto. As declarações de Gabeira certamente ainda provocarão acirradas discussões entremeadas por paixão e ódio. À esquerda fará uma leitura crítica, com possíveis incontáveis releituras, até absorver este potente jab frontal, enquanto à direita dirá que trata-se apenas de um mea culpa. A diferença do jovem que desfilava com uma sunga de crochê emprestada da prima, jornalista Leda Nagle, nas areias de Ipanema nos anos 70 para o parlamentar de terno e gravata que transita pelo Congresso Nacional em Brasília está, além da idade – Gabeira completou 68 anos em 2009 -, no pragmatismo de suas atitudes e no discernimento entre o possível e o imaginável. “O problema é ajustar esperança à realidade. Porque ter esperança é fundamental” ensina o quase septuagenário ex-guerrilheiro. (RR) |
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