A HISTÓRIA DA SHINDO RENMEI

Ao contrário do que a escrita fácil e leve do jornalista Fernando Morais parece convidar, “Corações Sujos” é um livro que não deve ser lido sem reflexão. A obra, que começou a ser filmada em março último e deve estar nas telas dos cinemas em 2011, conta a história da Shindo Renmei, uma associação que surgiu dentro da colônia japonesa no Brasil no ano de 1944 - mais de um ano antes da rendição do Japão - com o objetivo (oficial) de preservar a cultura japonesa e a imagem do imperador Hiroíto. No entanto, com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota do Japão, a entidade tornou-se radical e passou a assassinar os imigrantes japoneses que acreditassem na versão. O número de mortes chegou a 23 e o de pessoas feridas ultrapassou a 100. Os membros da Shindo Renmei falsificaram revistas e jornais internacionais para que os japoneses acreditassem que seu país havia vencido a guerra. Segundo Rogério Denzem - autor de outro livro sobre o caso intitulado Inventário Deops - Shindô Renmei - os kachigumi, aqueles que acreditavam na vitória do Japão, chegaram a ser 75% da colônia japonesa de 200 mil pessoas que viviam no Brasil.

A primeira reação que a maior parte das pessoas têm ao saber da história da Shindo Renmei - que significa Liga do Caminho dos Súditos - é acreditar que os japoneses que se recusavam a acreditar na derrota do Japão eram um grupo de pessoas ingênuas e que os membros da Shindo eram malucos fanáticos. No entanto, é preciso localizar o caso dentro da história do Brasil e do contexto de repressão a que os imigrantes de países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) estavam submetidos. Desde meados da guerra o governo de Getúlio Vargas havia proibido a publicação de jornais na língua desses países, assim como proibiu o ensino do idioma nas escolas e o seu uso nas ruas. Para a comunidade nipônica da época, cerca de 60% não falava o português, a medida significava uma condenação ao silêncio e à desinformação. E, ainda, a maior parte deles não estava no Brasil para ficar, mas pretendia retornar ao país natal e, portanto, não viam motivos para tornarem-se brasileiros.

O autor procura justificar e mostrar o que foi o Shindo Renmei. Tratá-la como uma seita de malucos é admitir um simplismo atroz. É preciso localizá-la historicamente no contexto de repressão e racismo vigentes à época e adicionar uma boa dose da cultura oriental japonesa. Além disso, havia uma parcela significativa de parlamentares cuja preocupação era promover um “branqueamento do povo brasileiro” através da imigração e os japoneses não se encaixavam no perfil racial desejado. O fato da maioria destes imigrantes terem sido enviados para as pequenas cidades do interior, onde serviam como mão de obra farta para agricultura, fez com que muitas delas se tornassem verdadeiras “cidades japonesas”.

Quando Morais fala daqueles que acreditavam e dos que não acreditavam na derrota japonesa, na maioria das vezes atribui isso a um maior nível educacional da pessoa ou então a uma maior assimilação que este teria da cultura brasileira. No entanto, é preciso levar em consideração que os “assimilados” - ou que tinham maior nível educacional – foram justamente aqueles que conseguiram ascender socialmente. Mas a maioria dos imigrantes enfrentava duras condições de sobrevivência, o que contribui para que desejassem voltar para o Japão, algo que se tornou bastante difícil após a vitória dos aliados.

Esses fatores - o cotidiano de racismo que muitas vezes viviam e a posição social inferior - são importantes quando imaginamos porque tantas pessoas recusaram-se a admitir que seu país tivesse sido derrotado. Conhecer a Shindo Renmei sem buscar um mínimo de compreensão do contexto histórico e da cultura japonesa pode significar muito pouco. Fernando Morais faz um levantamento de bastante fôlego dos casos de assassinato - que às vezes chega à gratuidade - e da repercussão na imprensa das ações da Shindo. Uma parte da história que vale a pena conhecer.