PLINIO MARCOS:
A VIDA E SUAS VERSÕES

"Biografia é malha da qual a vida real escapa”.A frase, de Oscar Wilde, é pinçada por Oswaldo Mendes na abertura de seu livro Plínio Marcos - Bendito Maldito, alentada biografia do autor de Navalha na Carne e Dois Perdidos numa Noite Suja, morto no dia 19 de novembro de 1999.  Quem reteve na memória a figura de barbas longas, macacão e chinelos que vendia seus livros na porta dos teatros - sempre prometendo morrer logo para valorizar a obra - dificilmente tem a dimensão da trajetória percorrida até esse ponto. Embora se tenha conhecimento, só uma visão de conjunto dá conta do avassalador efeito sobre sua vida artística e pessoal do tempo histórico que lhe foi dado viver. No seu caso a censura não foi mero obstáculo, mas interferência vital. E se atualmente seu talento está devidamente reconhecido, uma trama de equívocos ainda recobre a figura humana.
Pois corajosamente Oswaldo Mendes - amigo pessoal e, como ele, também ator, dramaturgo e jornalista - se propôs a puxar os fios dessa teia para revelar as várias facetas de Plínio

Marcos, sem temor das menos favoráveis, mas também sem pudor de trazer à tona atos de rara grandeza, cuidadosamente escondidos pelo seu autor quando vivo. A tarefa não era fácil. Afinal, o grande parte do emaranhado de versões contraditórias sobre a vida de Plínio Marcos se deve a ele próprio, famoso pelo talento para recriar fatos em narrativas saborosas que espalhava aos quatro cantos. A autodefinição de "autor analfabeto", sendo ávido leitor, era apenas uma das contradições envolvendo sua imagem pública. Como dar conta? "Para driblar essa armadilha só mesmo caminhando entre a literatura, com o colorido ficcional que Plínio deu a episódios reais, e o máximo de rigor jornalístico possível", escreve Oswaldo no prólogo do livro. E cumpre o que promete.
Refaz os passos de Plínio em ordem cronológica, desde a infância em Santos até sua morte em São Paulo, mas brinca com o tempo, dá pequenos saltos para atiçar a curiosidade, antes de voltar ao ponto de partida. Variações da frase "a história é saborosa, mas contraria os fatos" podem ser lidas em muitos momentos. Começa por desfazer a imagem, "vendida" pelo biografado, de moleque solto no mundo, criado entre marginais e bordéis. Ocorre que Plínio Marcos era canhoto e as "reguadas" corretivas para usar a mão direita - didatismo comum à época - lhe valeram uma gagueira e o horror à escola, ao contrário de seus irmãos, todos nascidos numa família de classe média-baixa, porém estruturada.
Com incrível poder de síntese, Mendes traça um panorama histórico da cidade de Santos na década de 50, um centro cultural efervescente, na qual o jovem de inteligência aguda convive com artistas e intelectuais, e assim faz sua formação. Outro mito desfeito envolve a "descoberta" de Plínio Marcos por Pagu. "Claro que o prestígio dela foi muito importante ao reconhecer a qualidade de Barrela, mas ela não "descobriu" o Plínio", diz Oswaldo em entrevista ao Estado.

Quantos conviveram com o dramaturgo ouviram a história de que ela teria escrito "esse analfabeto pensou que pudesse escrever outra peça" num jornal de Santos quando Plínio apresentou um segundo espetáculo. Oswaldo Mendes conseguiu recuperar o artigo e desfaz também esse equívoco. "Digamos que nas entrelinhas ela dizia mais ou menos isso, mas era uma cobrança para ele estudar, pois apostava em seu talento e inteligência”.

Sem dúvida, uma bela história.