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DROGA,VIOLÊNCIA E MEDO. A VIDA SEM RETOQUES
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O jornalista e escritor Caco Barcellos, em seu livro “Abusado – O dono do Morro Santa Marta”, traça um perfil, um retrato 3x4 da violência instalada no morro encravado em Botafogo, bairro da zona sul carioca. O cenário, no entanto, é o mesmo que se repete no dia a dia da cidade. A violência, a disputa pelo comércio de drogas, o poder que emana dos presídios onde lideres das principais facções criminosas se engalfinham pelo controle do tráfico no Rio de Janeiro. Numa linguagem jornalística, envolvente, Caco Barcellos mostra o cotidiano de um mundo surreal, onde as leis e regras seguem normas próprias implantadas pela coação, pelo medo, pela violência e pela força bruta. Para entender a violência urbana instalada no Rio de Janeiro é necessário compreender e entender como agem e o que pensam os protagonistas deste enredo do cotidiano. Abusado conta a trajetória de um traficante – Juliano VP – e seus companheiros de geração. Trata-se de uma verdadeira lição sobra à lógica, os meandros e os modos de operação das grandes corporações criminosas que comandam o tráfico de drogas.
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O leitor irá conhecer uma realidade que, embora faça parte do seu dia-a-dia, nunca foi esmiuçado de forma tão crua, tão real. Em cada uma das mais de 500 páginas, percorrerá as vielas e becos da favela como se estivesse assistindo um documentário. Trata-se de uma incursão que mostra pela primeira vez, sem retoques, (Caco reproduz, inclusive, a linguagem dos bandidos), a omissão do poder público, a malha apodrecida da Polícia e o crescimento ordenado, quase científico, da parcela de miseráveis que testa, a cada ação, até onde poderão ir com o seu poder de fogo, armas e drogas. É uma lógica sem lógica, com código e leis próprias.
Caco Barcellos conduz o leitor a uma verdadeira viagem ao estômago da besta que a sociedade prefere ignorar e as autoridades tentam manter apenas "sob controle". Durante cinco anos o repórter escutou, anotou, analisou e filtrou informações às quais a Polícia muitas vezes também teve acesso. A diferença está em que Caco Barcellos tomou a posição de denunciar, enquanto as autoridades acreditaram poder mantê-los "na pressão". Deu no que deu.
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Para o jornalista, escrever o livro foi uma oportunidade de contar a história de uma quadrilha da terceira geração do Comando Vermelho – uma das organizações criminosas que controlam o comércio ilegal de drogas nos morros do Rio. Outro componente importante foi o ambiente de formação da quadrilha. “A favela Dona Marta é um dos lugares de maior concentração humana do mundo. Parece uma grande família de doze mil pessoas, que vivem grudadas umas às outras numa área relativamente pequena. Todas se conhecem, todas são testemunhas das histórias que, por absoluta falta de espaço, acontecem perto de todo mundo. Um ambiente riquíssimo para quem gosta de ouvir e contar histórias, uma oportunidade que eu perseguia há muitos anos, desde a primeira grande guerra do tráfico, em 1987”. Ao mesmo tempo, o livro mostra o desenvolvimento da noção de cidadania entre os moradores do morro, seus esforços e conquistas, como os mutirões que levaram água e luz a todos os barracos da favela. Não deixa de apontar as péssimas condições de higiene, a pobreza, a desesperança, a violência e o medo da brutalidade da polícia. Abusado é um livro reportagem que se lê como romance, mas imprescindível para se entender a lógica de uma vida sem qualquer lógica. (RR)
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