Os mais jovens já devem ter lido ou escutado alguém se referir ao movimento militar de 1964 como “a redentora”. Pode ser também a frase “ou restaura-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”. Quem sabe uma menção ao Festival de Besteira que Assola o País – o Febeapá. Os mais velhos certamente hão de se recordar de um nome, ou melhor, pseudônimo: Stanislaw Ponte Preta, criador, entre outros, do concurso as “Certinhas do Lalau”. Mas é possível que poucos se lembrem de Sérgio Porto, jornalista, escritor, radialista e compositor nascido em 1923 e morto em 1968, aos 45 anos. Toda essa mixórdia tem em comum a criatividade e o talento de um carioca de Copacabana, filho de classe média, que no final dos anos 40 começou a militar na imprensa do Rio de Janeiro. Além da memória, ficou como herança um sem número de textos que se perpetuaram tanto na consciência popular – os seus milhares de leitores - como nas redações de jornais – os colegas que ainda tentam, em vão, imitá-lo. Dono de um estilo crítico, ferino, que por vezes beirava a mordacidade, mas sempre recheado de ironia e bom humor, Sérgio Porto - ou Stanislaw Ponte Preta - deixou uma enorme
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contribuição ao jornalismo brasileiro. “A casa demolida”, editada em 1961, é uma miscelânea de contos do seu primeiro livro, “O homem ao lado”, lançado em 1958, acrescidos de histórias publicados em jornais e revistas da época. Agora, para lembrar o 40º aniversário de sua morte, a Editora Agir publica uma nova versão. Além desse livro, apenas em dois outros ele assina com seu nome verdadeiro: “Pequena história do Jazz” e “As cariocas”.
A sensação é que o autor de “A casa demolida” chama-se Sérgio Porto e não Stanislaw Ponte Preta. Talvez o valor maior da obra esteja em conhecer um pouco mais a alma de alguém que se notabilizou pela irreverência, humor e espírito crítico. Nessa coletânea, ele narra suas memórias vividas nas décadas de 30 e 40 num bairro de ruas tranqüilas, relembra as missas aos domingos pela manhã, descreve as casas com varandas e pomares que aos poucos foram sendo demolidas para dar lugar aos “arranha-céus”. Foi um espectador privilegiado de todas essas transformações, inclusive porque sua residência também veio abaixo para dar lugar a um “moderno edifício”. Daí, o titulo do livro. Se estivesse vivo, certamente seria uma espécie de museu ambulante a contar os resquícios da história de um dos bairros mais famosos do mundo – Copacabana.
Como se contextualizasse no livro sua vida em ordem cronológica, Sérgio Porto conta histórias de pessoas famosos ou anônimos com os quais conviveu, entremeados pela ficção do que via nas ruas da cidade. Depois é a vez do personagem Stanislaw Ponte Preta começar a se incorporar no jornalista com textos que viriam a ser sua marca registrada: crônicas atulhadas de ironia e bom humor. Aliás, era capaz de rir da própria dor. Vítima de um enfarto, faleceu em 29 de setembro de 1968. Segundo os amigos, ao sentir-se mal, em casa, teria gritado para a mulher “Tunica, eu tô apagando!”.
No país da “piada pronta”, Stanislaw Ponte Preta faz muita falta. (RR) |