No ano em que se comemora dois séculos da vinda da família real ao Brasil, o livro do jornalista paranaense Laurentino Gomes, ’1808’, é uma leitura obrigatória não só aqueles que querem entender um pouco da história desse País, como também um referencial sociológico de usos, costumes e práticas que permanecem arraigadas até hoje na ex-colônia. Aliás, não é sem motivos que a obra tornou-se um dos best-sellers mais vendidos no País. Numa linguagem simples, coloquial, no melhor estilo jornalístico e sem qualquer preocupação acadêmica, Gomes recria um cenário que mais parece uma proposta de roteiro para documentário, filme ou mini série de televisão pronto para ser executado. Um retrato em 3x4 da história do Brasil com todas as suas mazelas e virtudes. O sub-titulo, na capa, resume todo o enredo: “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”. Ao final de pouco mais de 400 páginas, o leitor é capaz de entender não só o processo de formação cultural do Brasil de 1808 até nossos dias, mas compreender as razões que
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levaram Portugal a ser uma espécie de primo pobre da Europa ocidental. Mas nada é por acaso. O livro exigiu mais de 10 anos de pesquisas. Gomes foi buscar nas minúcias, nos detalhes, no comportamento dos “personagens” por vezes “inacreditavelmente caricatos (...) algo que se poderia dizer de todos os governantes, inclusive alguns muitos atuais”. A rigor, tanto dos governantes como da elite governada. Para o autor, “a visão, a carga de preconceito que se tem de D. João VI, Carlota Joaquina e sua corte” foi contaminada pelas disputas políticas entre monarquistas, republicanos, abolicionistas, senhores de escravos, entre outros, que se engalfinhavam numa luta de poder. Exceto os nomes das siglas, nada parece muito diferente do Brasil de 2008.
O Rio de Janeiro da época tinha cerca de 60.000 habitantes. Em 1821, quando a família voltou a Portugal era de 120.000. Nesse período, roubos e assassinatos aconteciam a todo momento (...) gangues de arruaceiros percorriam as ruas atacando as pessoas a golpes de faca e estilete”. De acordo com o arquivista real, Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, “em cinco dias, contaram-se em pequeno circuito 22 assassinatos”. A tarefa de colocar “ordem no caos foi confiada por D. João ao advogado Paulo Fernandes Viana”, nomeado intendente geral da polícia - uma função que nos dias de hoje equivaleria ao misto de prefeito e secretário de segurança. O influente homem público – que tinha audiência com o rei a cada dois dias – era de opinião que a polícia devia “manter o povo entretido” e este, por sua vez, devia “amor e respeito ao soberano e sua dinastia”. Os negros, quando cometiam algum delito, eram açoitados em praça pública. Viana achou que isso não era compatível com o “refinamento, a elegância que o Rio de Janeiro ostentava desde a chegada da família real”. A solução foi transferir os açoitamentos e chibatadas para os porões da Intendência Geral da polícia, “longe dos olhos de nobres e estrangeiros que circulavam pelas ruas”. Em 1816, temendo a disseminação das idéias nascidas a partir da Revolução Francesa de 1789, o homem forte do Império decide organizar “na Intendência Geral da Polícia um serviço de ‘contra espionagem’, com recomendações expressas que os suspeitos sejam “vigiados por espiões confiáveis”. Nada é mera coincidência.
Sem preciosismos e livre de rebuscos conceituais, “1808” é um excelente relato dos últimos 200 anos de nossa história. (RR)
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